Arquivo | março 2007

É talvez…

“É talvez o último dia da minha vida.
Saudei o Sol, levantando a mão direita,
Mas não o saudei, dizendo-lhe adeus,
Fiz sinal de gostar de o ver antes: mais nada. “

 

Alberto Caeiro

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Ainda te sinto

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“ainda te sinto
em tudo que permanece
como se tua pressa
de vida que se extingue
ficasse um pouco em tudo
ainda”

Alice Ruiz

Segue o teu destino

 

 

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Quadro:Salvador Dalí

*****

 

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.
A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.
Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.
Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.
Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

Ricardo Reis

Na ilha por vezes habitada

Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,
manhãs e madrugadas em que não precisamos de
morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será.
O mundo aparece explicado definitivamente e entra
em nós uma grande serenidade, e dizem-se as
palavras que a significam.
Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas
mãos.
Com doçura.
Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a
vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o
sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do
mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos
ossos dela.
Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres
como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.

 

José Saramago

A morte

“A morte é anterior a si mesma. Começa antes, muito antes. É todo um
lento, suave, maravilhoso processo. O sujeito já começou a morrer e não
sabe.

Morrer significa, em última análise, um pouco de vocação. Há vivos tão
pouco militantes que temos vontade de lhes enviar coroas ou de lhes
atirar na cara a última pá de cal. Esses, sim, têm a vocação da morte.

Há, em qualquer infância, uma antologia de mortos.

Na hora de morrer, e quando sabe que está morrendo, todo homem tem um
olhar de contínuo.

Há na morte por intoxicação alimentar um inevitável toque humoristico,
que humilha o cadáver e compromete o velório.

Para mim, qualquer morta tem mais densidade do que qualquer morto.

A morte natural é própria dos medíocres. O medíocre tem de fazer uma
força tremenda para morrer tragicamente. Ele morre de gripe, de
pneumonia oun da empada que matou o guarda. Já o grande homem sempre
morre tragicamente. Veja o caso de Lincoln, de Gandhy, de Kennedy.

Há uma inteligência da morte, assim como há uma bondade da morte. O que
vai morrer já olha as coisas, as pessoas, com a doçura do último olhar.
Eu diria que é a saudade antes do adeus.

O sujeito procura esquecer que o homem é também o seu próprio cadáver. E
ele, queira ou não, não destruirá jamais a sua vocação para a morte.

Nada mais falso do que o medo de morrer, e eu diria que nós fazemos tudo
para morrer o mais depressa possível. Os nossos hábitos, os nossos usos,
os nossos vícios, as nossas irritações mal disfarçam a vontade, a
urgência, a fome da morte.

Chegou às redações a notícia da minha morte. E os bons colegas trataram
de fazer a notícia. Se é verdade o que de mim disseram os necrológios,
com a generosa abundância de todos os necrológios, sou de fato um bom
sujeito.

A morte é um grande despertar.”

A morte segundo Nélson Rodrigues.

Serenata do adeus

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Ai, a lua que no céu surgiu
Não é a mesma que te viu
Nascer dos braços meus…
cai a noite sobre o nosso amor
E agora só restou do amor
Uma palavra: adeus…

Ai, vontade de ficar
Mas tendo de ir embora…
Ai, que amor é se ir morrendo
Pela vida afora
É refletir na lágrima
O momento breve
De uma estrela pura
cuja luz morreu…

Ò mulher, estrela a refulgir
Parte, mas antes de partir
Rasga o meu coração…
crava as garras no meu peito em dor
E esvai em sangue todo o amor
Toda a desilusão…

Ah, vontade de ficar
Mas tendo de ir embora…
Ai, que amar é se ir morrendo
Pela vida afora
É refletir na lágrima
O momento breve
De uma estrela pura
cuja luz morreu
Numa noite escura
Triste como eu…

Vinícius de Moraes

História humana

sombras

 

“A história humana não se desenrola apenas nos campos de batalha e nos gabinetes presidenciais. Ela se desenrola também nos quintais, entre plantas e galinhas; nas ruas de subúrbio, nas casas de jogo, nos prostíbulos, nos colégios, nas ruínas, nos namoros de esquina. Disso quis eu fazer a minha poesia, dessa vida obscura e injustiçada, porque o canto não pode ser uma traição à vida, e só é justo cantar se o nosso canto arrasta consigo as pessoas e as coisas que não têm voz.”Ferreira Gullar