Arquivo | abril 2007

Grandes mistérios habitam

kan.jpg

Quadro de Wassily Kandinsky

Grandes mistérios habitam
O limiar do meu ser,
O limiar onde hesitam
Grandes pássaros que fitam
Meu transpor tardo de os ver.

São aves cheias de abismo,
Como nos sonhos as há.
Hesito se sondo e cismo,
E à minha alma é cataclismo
O limiar onde está.

Então desperto do sonho
E sou alegre da luz,
Inda que em dia tristonho;
Porque o limiar é medonho
E todo passo é uma cruz.

Fernando Pessoa

Ah, Perante

Ah, perante esta única realidade, que é o mistério, 
Perante esta única realidade terrível — a de haver uma realidade, 
Perante este horrível ser que é haver ser, 
Perante este abismo de existir um abismo, 
Este abismo de a existência de tudo ser um abismo, 
Ser um abismo por simplesmente ser, 
Por poder ser, 
Por haver ser! 
— Perante isto tudo como tudo o que os homens fazem, 
Tudo o que os homens dizem, 
Tudo quanto constroem, desfazem ou se constrói ou desfaz através deles, 
Se empequena! 
Não, não se empequena… se transforma em outra coisa — 
Numa só coisa tremenda e negra e impossível, 
Urna coisa que está para além dos deuses, de Deus, do Destino 
—Aquilo que faz que haja deuses e Deus e Destino, 
Aquilo que faz que haja ser para que possa haver seres, 
Aquilo que subsiste através de todas as formas, 
De todas as vidas, abstratas ou concretas, 
Eternas ou contingentes, 
Verdadeiras ou falsas! 
Aquilo que, quando se abrangeu tudo, ainda ficou fora, 
Porque quando se abrangeu tudo não se abrangeu explicar por que é um tudo, 
Por que há qualquer coisa, por que há qualquer coisa, por que há qualquer coisa! 
 
Minha inteligência tornou-se um coração cheio de pavor,  
E é com minhas idéias que tremo, com a minha consciência de mim, 
Com a substância essencial do meu ser abstrato 
Que sufoco de incompreensível, 
Que me esmago de ultratranscendente, 
E deste medo, desta angústia, deste perigo do ultra-ser, 
Não se pode fugir, não se pode fugir, não se pode fugir! 
 
Cárcere do Ser, não há libertação de ti? 
Cárcere de pensar, não há libertação de ti? 
Ah, não, nenhuma — nem morte, nem vida, nem Deus! 
Nós, irmãos gêmeos do Destino em ambos existirmos, 
Nós, irmãos gêmeos dos Deuses todos, de toda a espécie, 
Em sermos o mesmo abismo, em sermos a mesma sombra, 
Sombra sejamos, ou sejamos luz, sempre a mesma noite. 
Ah, se afronto confiado a vida, a incerteza da sorte, 
Sorridente, impensando, a possibilidade quotidiana de todos os males, 
Inconsciente o mistério de todas as coisas e de todos os gestos, 
Por que não afrontarei sorridente, inconsciente, a Morte? 
Ignoro-a?  Mas que é que eu não ignoro? 
A pena em que pego, a letra que escrevo, o papel em que escrevo, 
São mistérios menores que a Morte?  Como se tudo é o mesmo mistério? 
E eu escrevo, estou escrevendo, por uma necessidade sem nada. 
Ah, afronte eu como um bicho a morte que ele não sabe que existe! 
Tenho eu a inconsciência profunda de todas as coisas naturais, 
Pois, por mais consciência que tenha, tudo é inconsciência, 
Salvo o ter criado tudo, e o ter criado tudo ainda é inconsciência, 
Porque é preciso existir para se criar tudo, 
E existir é ser inconsciente, porque existir é ser possível haver ser, 
E ser possível haver ser é maior que todos os Deuses.

Alvaro de Campos

O meu soneto

Em atitudes e em ritmos fleumáticos
Erguendo as mãos em gestos recolhidos,
Todos brocados fúlgidos, hieráticos,
Em ti andam bailando os meus sentidos…
E os meus olhos serenos, enigmáticos
Meninos que na estrada andam perdidos,
Dolorosos, tristíssimos, extáticos,
São letras de poemas nunca lidos…
As magnólias abertas dos meus dedos
São mistérios, são filtros, são enredos
Que pecados de amor trazem de rastros…
E a minha boca, a rútila manhã,
Na Via Láctea, lírica, pagã,
A rir desfolha as pétalas dos astros!…

 

Florbela Espanca

A dança da psique

20 de abril, nascimento de Augusto dos Anjos.

(1884 – 1914)

 

A dança dos encéfalos acesos
Começa. A carne é fogo. A alma arde. A espaços
As cabeças, as mãos, os pés e os braços
Tombam, cedendo à ação de ignotos pesos!

E então que a vaga dos instintos presos
– Mãe de esterilidades e cansaços –
Atira os pensamentos mais devassos
Contra os ossos cranianos indefesos

Subitamente a cerebral coréia
Pára. O cosmos sintético da Idéia
Surge. Emoções extraordinárias sinto

Arranco do meu crânio as nebulosas
E acho um feixe de forças prodigiosas
Sustentando dois monstros: a alma e o instinto!

Augusto dos Anjos

Tempo

heliconiarm.jpg

 

“Que boca há de roer o tempo? Que rosto

Há de chegar depois do meu? Quantas vezes

O tule do meu sopro há de pousar

Sobre a brancura fremente do teu dorso?

 

Atravessaremos juntos as grandes espirais

A artéria estendida do silêncio, o vão

O patamar do tempo?

 

Quantas vezes dirás: vida, vésper, magna-marinha

E quantas vezes direi: és meu. E as distendidas

Tardes, as largas luas, as madrugadas agônicas

Sem poder tocar-te. Quantas vezes, amor

 

Uma nova vertente há de nascer em ti

E quantas vezes em mim há de morrer. “

 

 

Hilda Hilst

Lua nova

“Não pensem que estou aguardando a lua cheia
– Esse sol da demência
Vaga e noctâmbula.
O que eu mais quero,
O de que preciso
É de lua nova”

Manoel Bandeira

Reparei que a poeira se misturava às nuves

“Levamos toda a vida morrendo em surdina.
No trabalho, no amor, acordados, em sonho.
A vida é a vigilância da morte,
até que o seu fogo veemente nos consuma
sem a consumir. “

Reparei que a poeira se misturava às nuvens,
e, sem pôr o ouvido na terra,
senti a pressa dos que chegavam.
Disse-me de repente: “Eis que o tropel avança”.
Mas todos me olhavam como surdos,
e deixavam-me sem responder nada.
Vi as nuvens tornarem-se vermelhas
e repeti: “Eis que os incêndios se aproximam”.
(Mas não havia mais interlocutores.)
“Eles vêm, eles não podem deixar de vir”,
balbuciei para a solidão, para o ermo.
E já por detrás dos montes subiam chamas altas;
ou eram estandartes ou eram labaredas.
Perguntei: “Que me vale ter casa, parentes, vida?
Sou a terra que estremece? ou a multidão que avança?
Ó solidão minha, ó limites da criatura!
Meu nome está em mim? no passado ou no futuro?
Ninguém responde. E o fogo avança para meu pequeno enigma”.
Apenas um anjo negro entreabriu seus lábios,
verdadeiramente como um botão de rosa.
“Death”
DEATH?
Por que me falas nesse idioma? perguntei-lhe, sonhando.
Em qualquer língua se entende essa palavra.
Sem qualquer língua.
O sangue sabe-o.
Uma inteligência esparsa aprende
esse convite inadiável.
Búzios somos, moendo a vida inteira
essa música incessante.
Morte, morte.
Levamos toda a vida morrendo em surdina.
No trabalho, no amor, acordados, em sonho.
A vida é a vigilância da morte,
até que o seu fogo veemente nos consuma
sem a consumir.

 

Cecília Meireles – Poesias Completas