Reparei que a poeira se misturava às nuves

“Levamos toda a vida morrendo em surdina.
No trabalho, no amor, acordados, em sonho.
A vida é a vigilância da morte,
até que o seu fogo veemente nos consuma
sem a consumir. “

Reparei que a poeira se misturava às nuvens,
e, sem pôr o ouvido na terra,
senti a pressa dos que chegavam.
Disse-me de repente: “Eis que o tropel avança”.
Mas todos me olhavam como surdos,
e deixavam-me sem responder nada.
Vi as nuvens tornarem-se vermelhas
e repeti: “Eis que os incêndios se aproximam”.
(Mas não havia mais interlocutores.)
“Eles vêm, eles não podem deixar de vir”,
balbuciei para a solidão, para o ermo.
E já por detrás dos montes subiam chamas altas;
ou eram estandartes ou eram labaredas.
Perguntei: “Que me vale ter casa, parentes, vida?
Sou a terra que estremece? ou a multidão que avança?
Ó solidão minha, ó limites da criatura!
Meu nome está em mim? no passado ou no futuro?
Ninguém responde. E o fogo avança para meu pequeno enigma”.
Apenas um anjo negro entreabriu seus lábios,
verdadeiramente como um botão de rosa.
“Death”
DEATH?
Por que me falas nesse idioma? perguntei-lhe, sonhando.
Em qualquer língua se entende essa palavra.
Sem qualquer língua.
O sangue sabe-o.
Uma inteligência esparsa aprende
esse convite inadiável.
Búzios somos, moendo a vida inteira
essa música incessante.
Morte, morte.
Levamos toda a vida morrendo em surdina.
No trabalho, no amor, acordados, em sonho.
A vida é a vigilância da morte,
até que o seu fogo veemente nos consuma
sem a consumir.

 

Cecília Meireles – Poesias Completas

Para não esquecer

“ — Teu nome será Nevers, Nevers na França..
— E o teu será Hiroshima…”
(Margueritte Duras, em “Hiroshima, mon amour”)

Eu te reencontro, amor-de-ontem
no fundo de minha alma
e te escuto ao telefone —
mesma voz doce-calma,
pura ternura.

…E não sei a quem pedir perdão,
a quem traí
quando parti,
que ao partir, parti-me.
Por anos-luz vagueei
perdendo-te,
perdendo-me.

Hoje relembro a alegria,
o teu riso,
milhões de guisos
ao acordar-me o dia.
o desjejum que fazias,
o amor-prazer tranquilo,
nossa elegia.
Eu então nada escrevia,
só vivia.

E te retiro  do esquecimento,
refaço-me do sofrer.
Hoje o passado eu canto
para o presente viver
ou escolher…
E te nomeio Nevers,
o jovem amor-encanto,
que eu, Hiroshima,
não mais vou esquecer.

Maju Costa

Aprendo

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“Eu te amo, homem, hoje como toda vida quis e não sabia, eu que já amava de extremoso amor o peixe, a mala velha, o papel de seda e os riscos de bordado, onde tem o desenho cômico de um peixe — os lábios carnudos como os de uma negra.”

“Divago, quando o que quero é só dizer te amo.”

“Dize-me, ó amado da minha alma, onde apascentas o teu gado, onde repousas ao meio-dia, para que eu não ande vagueando atrás dos rebanhos de teus companheiros”.

 “Aprendo. Te aprendo, homem. O que a memória ama fica eterno. Te amo com a memória, imperecível.

“Eu te amo, homem, exatamente como amo o que acontece quando escuto oboé. Meu coração vai desdobrando os panos, se alargando aquecido, dando a volta ao mundo, estalando os dedos pra pessoa e bicho.”

Adélia Prado – Para o Zé.

“O que a memória amou fica eterno”

 

Com licença poética

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
essa espécie ainda envergonhada.
Aceito subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa me casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
– dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

Adélia Prado

 

Paixão

FRACTAL DE SOPHIE LERLEI

 

FRACTAL DE SOPHIE LERLEI

 

“De vez em quando Deus me tira a poesia.
Olho pedra, vejo pedra mesmo.
O mundo, cheio de departamentos, não é a bola bonita caminhando solta no espaço.”

Adélia Prado