Arquivo | maio 2007

Ainda que mal

Ainda que mal pergunte,
ainda que mal respondas;
ainda que mal te entenda,
ainda que mal repitas;
ainda que mal insista,
ainda que mal desculpes;
ainda que mal me exprima,
ainda que mal me julgues;
ainda que mal me mostre,
ainda que mal me vejas;
ainda que mal te encare,
ainda que mal te furtes;
ainda que mal te siga,
ainda que mal te voltes;
ainda que mal te ame,
ainda que mal o saibas;
ainda que mal te agarre,
ainda que mal te mates;
ainda assim te pergunto
e me queimando em teu seio,
me salvo e me dano: amor.

Carlos Drummond de Andrade

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Canção


Nós somos todos os dias

Meu amigo

Nós somos toda a vida

Meu amor

Nós nos amamos e nós vivemos

nós vivemos e nós nos amamos

E não sabemos o que é a vida

E não sabemos o que é o dia

E  não sabemos o que é o amor

Jacques Prevert

Reflexões III

Na soturna mudez dos meus infaustos dias
dentro em mim, sem que alguém os possa divisar,
há um anjo que abençoa as minhas agonias
e um demônio que ri do meu grande pesar.

Um me ordena a tortura, e fala em fugidias
delícias, e ergue aos céus o austero e frio olhar;
o outro tem seduções, risos, frases macias
e açula-me a um prazer bem fácil de alcançar.

Dous poderes rivais se defrontam em mim;
como atender, porém, a esse duplo comando?
— um dos dous (qual dos dous?) deve triunfar por fim?

Minha vontade hesita, é a um pêndulo igual,
e eu morro, lentamente, oscilando… oscilando…
entre as dores do Bem e as delícias do Mal.

Gilka Machado

Analogia

gelo-e-flor.jpg

 

Amo o Inverno assim triste, assim sombrio,
lembrando alguém que já não sabe amar;
e sempre, quando o sinto e quando o espio,
julgo-te eterizado, esparso no ar.

Afoita, a alma do Inverno desafio,
para inda te querer e te pensar…
para gozá-lo e gozar-te, que arrepio!…
que semelhança em ambos singular!…

Loucura pertinaz do meu anelo:
— emprestar-te, emprestar-lhe uma emoção,
— pelo mal de perder-te querer tê-lo…

Amor! Inverno! Minha aspiração!
quem me dera resfriar-me no teu gelo!
quem me dera aquecer-te em meu verão!…

Gilka Machado

Science – fiction I

Talvez o nosso mundo se convexe
Na matriz positiva doutra esfera.

Talvez no interspaço que medeia
Se permutem secretas migrações.

Talvez a cotovia, quando sobe,
Outros ninhos procure, ou outro sol.

Talvez a cerva branca do meu sonho
Do côncavo rebanho se perdesse.

Talvez do eco dum distante canto
Nascesse a poesia que fazemos.

Talvez só amor seja o que temos,
Talvez a nossa coroa, o nosso manto

José Saramago

Hiatus

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Até breve!