Arquivo | março 2010

Condenação

 

“Poeta condenado por amar demais!” —
faltou essa manchete
nos jornais.
E ao tanto cantar
amor apenas
escancarou ao mundo
sonhos, penas.
Gente
que sente, máquina não,
ousou,
soltou
a fantasia,
o coração…
que se quebrou
em mil versos,
dispersos
como jogos,
como fogos
ou cometas
estrelas cintilantes
a iluminar
amantes.
Palavras ditas,
chamas escritas…
Mas ao tanto o amor cantar
e assim se dar,
esteta,
começou a incomodar os con-
formados…
E condenado foi
a amor não ter,
a ser sozinho
ou
a só Ser…
Poeta. 
 Maju Costa
 

Dia Mundial da Agua

Planeta Água

Guilherme Arantes

Composição: Guilherme Arantes

Água que nasce na fonte
Serena do mundo
E que abre um
Profundo grotão
Água que faz inocente
Riacho e deságua
Na corrente do ribeirão…

Águas escuras dos rios
Que levam
A fertilidade ao sertão
Águas que banham aldeias
E matam a sede da população…

Águas que caem das pedras
No véu das cascatas
Ronco de trovão
E depois dormem tranqüilas
No leito dos lagos
No leito dos lagos…

Água dos igarapés
Onde Iara, a mãe d’água
É misteriosa canção
Água que o sol evapora
Pro céu vai embora
Virar nuvens de algodão…

Gotas de água da chuva
Alegre arco-íris
Sobre a plantação
Gotas de água da chuva
Tão tristes, são lágrimas
Na inundação…

Águas que movem moinhos
São as mesmas águas
Que encharcam o chão
E sempre voltam humildes
Pro fundo da terra
Pro fundo da terra…

Terra! Planeta Água
Terra! Planeta Água
Terra! Planeta Água…(2x)

Água que nasce na fonte
Serena do mundo
E que abre um
Profundo grotão
Água que faz inocente
Riacho e deságua
Na corrente do ribeirão…

Águas escuras dos rios
Que levam a fertilidade ao sertão
Águas que banham aldeias
E matam a sede da população…

Águas que movem moinhos
São as mesmas águas
Que encharcam o chão
E sempre voltam humildes
Pro fundo da terra
Pro fundo da terra…

Terra! Planeta Água
Terra! Planeta Água
Terra! Planeta Água…(2x)

Declaração

“Tens de ter certeza de que meu amor por ti

é coisa profunda, grande, definitiva,

acima de brigas, de caprichos, de idades,

de literatura”

João Guimarães Rosa

Mineral

“Eu serei musgo para você pisar, deite-se em mim,

meu amor, chore em mim, e ficarei mais aveludada,

mais tenra… Musgo, não é?

Não sei por que agora quero ser planta,

eu que já fui mineral. Dura como pedra.”

Lygia Fagundes Telles

 

Se desse um grito

Se desse um grito – imagino já sem lucidez – minha voz receberia o eco igual e indiferente das paredes da terra. Sem viver coisas eu não encontrarei a vida, pois? (…) Presa, presa. Onde está a imaginação? Ando sobre trilhos invisíveis. Prisão, liberdade. São essas as palavras que me ocorrem. No entanto não são as verdadeiras, únicas e insubstituíveis, sinto-o. Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome. Procurar tranqüilamente admitir que talvez só encontre se for buscá-la nas fontes pequenas. Ou senão morrerei de sede. Talvez não tenha sido feita para as águas puras e largas, mas para as pequenas e de fácil acesso.
 
Clarice Lispector