Arquivo | abril 2010

A Dor

Assim se forma uma alma rarefeita:
com espelho, com ninguém, com retrato,
sem homens, sem Partido, sem verdade,
com sussurro, com ciúmes, com distância,
sem companheiro, sem razão, sem canto,
com armas, com silêncio, com papéis,
sem povo, sem consulta, sem sorriso,
com espias, com sombras e com sangue,
sem França, sem Itália, sem os cravos,
com Bérias, com sarcófagos, com mortos,
sem comunicção, sem alegria,
com mentirosos, com látegos e línguas,
sem comunicação, sem alegria,
com a imposição e com a crueldade,
sem saber quando cortam a madeira,
com a soberba triste, com a cólera,

sem compartir o pão e a alegria,
com mais e mais e mais e mais e mais
e sem ninguém, e sem ninguém, sem nenhum,
com as portas fechadas e com muros,
e sem o povo de suas padarias,
e com cordéis, com nós e com ausência,
sem mão aberta, sem flor evidente,
com as metralhadoras, com soldados,
sem a contradição, sem a consciência,
com desterro, com frio e com inferno,
sem ti, sem alma, só, e com a morte.

Pablo Neruda

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