Arquivo | junho 2011

É noite…

É noite. A noite é muito escura. Numa casa a uma grande distância 

Brilha a luz duma janela.
Vejo-a, e sinto-me humano dos pés à cabeça.
É curioso que toda a vida do indivíduo que ali mora, e que não sei quem é,
Atrai-me só por essa luz vista de longe.
Sem dúvida que a vida dele é real e ele tem cara, gestos, família e profissão.

Mas agora só me importa a luz da janela dele.
Apesar de a luz estar ali por ele a ter acendido,
A luz é a realidade imediata para mim.
Eu nunca passo para além da realidade imediata.
Para além da realidade imediata não há nada.
Se eu, de onde estou, só veio aquela luz,
Em relação à distância onde estou há só aquela luz.
O homem e a família dele são reais do lado de lá da janela.
Eu estou do lado de cá, a uma grande distância.
A luz apagou-se.
Que me importa que o homem continue a existir?

Alberto Caeiro

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Pretexto

Por que não cai a noite, de uma vez?

— Custa viver assim aos encontrões!

Já sei de cor os passos que me cercam,

o silêncio que pede pelas ruas,

e o desenho de todos os portões.

Por que não cai a noite, de uma vez?

— Irritam-me estas horas penduradas

como frutos maduros que não tombam.

(E dentro em mim, ninguém vem desfazer

o novelo das tardes enroladas.)

Maria Alberta Menéres

Cogito

 

Klimt

 

Eu sou como eu sou

Pronome

Pessoal intransferível

Do homem que iniciei

Na medida do impossível

Eu sou como eu sou

Agora

Sem grandes segredos dantes

Sem novos secretos dentes

Nesta hora

Eu sou como eu sou

Presente

Desferrolhado indecente

Feito um pedaço de mim

Eu sou como eu sou

Vidente

E vivo tranqüilamente

Todas as horas do fim

Torquato Neto

As rosas


Quando à noite desfolho e trinco as rosas
É como se prendesse entre os meus dentes
Todo o luar das noites transparentes,
Todo o fulgor das tardes luminosas,
O vento bailador das Primaveras,
A doçura amarga dos poentes,
E a exaltação de todas as esperas.

Sophia de Mello Breyner Andresen