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Dormir

No fim de tudo dormir.
No fim de quê?
No fim do que tudo parece ser…,
Este pequeno universo provinciano entre os astros,
Esta aldeola do espaço,
E não só do espaço visível, mas até do espaço total.
 
Alvaro de campos

O que há

 
 
 
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser…
….

O que há em mim é sobretudo cansaço —
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A sutileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser…
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto…
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimo, íssimo, íssimo,
Cansaço…

 
 
Alvaro de Campos

Na noite terrivel

 

luaazul.jpg

Na noite terrível, substância natural de todas as noites,
Na noite de insônia, substância natural de todas as minhas noites,
Relembro, velando em modorra incômoda,
Relembro o que fiz e o que podia ter feito na vida.
Relembro, e uma angústia
Espalha-se por mim todo como um frio do corpo ou um medo.
O irreparável do meu passado — esse é que é o cadáver!
Todos os outros cadáveres pode ser que sejam ilusão.
Todos os mortos pode ser que sejam vivos noutra parte.
Todos os meus próprios momentos passados pode ser que existam algures,
Na ilusão do espaço e do tempo,
Na falsidade do decorrer.
Mas o que eu não fui, o que eu não fiz, o que nem sequer sonhei;
O que só agora vejo que deveria ter feito,
O que só agora claramente vejo que deveria ter sido —
Isso é que é morto para além de todos os Deuses,
Isso – e foi afinal o melhor de mim – é que nem os Deuses fazem viver …
Se em certa altura
Tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita;
Se em certo momento
Tivesse dito sim em vez de não, ou não em vez de sim;
Se em certa conversa
Tivesse tido as frases que só agora, no meio-sono, elaboro —
Se tudo isso tivesse sido assim,
Seria outro hoje, e talvez o universo inteiro
Seria insensivelmente levado a ser outro também.
Mas não virei para o lado irreparavelmente perdido,
Não virei nem pensei em virar, e só agora o percebo;
Mas não disse não ou não disse sim, e só agora vejo o que não disse;
Mas as frases que faltou dizer nesse momento surgem-me todas,
Claras, inevitáveis, naturais,
A conversa fechada concludentemente,
A matéria toda resolvida…
Mas só agora o que nunca foi, nem será para trás, me dói.
O que falhei deveras não tem esperança nenhuma
Em sistema metafísico nenhum.
Pode ser que para outro mundo eu possa levar o que sonhei,
Mas poderei eu levar para outro mundo o que me esqueci de sonhar?
Esses sim, os sonhos por haver, é que são o cadáver.
Enterro-o no meu coração para sempre, para todo o tempo, para todos os universos,

Nesta noite em que não durmo, e o sossego me cerca
Como uma verdade de que não partilho,
E lá fora o luar, como a esperança que não tenho, é invisível p’ra mim.

 

Alvaro de Campos

Ah, Perante

Ah, perante esta única realidade, que é o mistério, 
Perante esta única realidade terrível — a de haver uma realidade, 
Perante este horrível ser que é haver ser, 
Perante este abismo de existir um abismo, 
Este abismo de a existência de tudo ser um abismo, 
Ser um abismo por simplesmente ser, 
Por poder ser, 
Por haver ser! 
— Perante isto tudo como tudo o que os homens fazem, 
Tudo o que os homens dizem, 
Tudo quanto constroem, desfazem ou se constrói ou desfaz através deles, 
Se empequena! 
Não, não se empequena… se transforma em outra coisa — 
Numa só coisa tremenda e negra e impossível, 
Urna coisa que está para além dos deuses, de Deus, do Destino 
—Aquilo que faz que haja deuses e Deus e Destino, 
Aquilo que faz que haja ser para que possa haver seres, 
Aquilo que subsiste através de todas as formas, 
De todas as vidas, abstratas ou concretas, 
Eternas ou contingentes, 
Verdadeiras ou falsas! 
Aquilo que, quando se abrangeu tudo, ainda ficou fora, 
Porque quando se abrangeu tudo não se abrangeu explicar por que é um tudo, 
Por que há qualquer coisa, por que há qualquer coisa, por que há qualquer coisa! 
 
Minha inteligência tornou-se um coração cheio de pavor,  
E é com minhas idéias que tremo, com a minha consciência de mim, 
Com a substância essencial do meu ser abstrato 
Que sufoco de incompreensível, 
Que me esmago de ultratranscendente, 
E deste medo, desta angústia, deste perigo do ultra-ser, 
Não se pode fugir, não se pode fugir, não se pode fugir! 
 
Cárcere do Ser, não há libertação de ti? 
Cárcere de pensar, não há libertação de ti? 
Ah, não, nenhuma — nem morte, nem vida, nem Deus! 
Nós, irmãos gêmeos do Destino em ambos existirmos, 
Nós, irmãos gêmeos dos Deuses todos, de toda a espécie, 
Em sermos o mesmo abismo, em sermos a mesma sombra, 
Sombra sejamos, ou sejamos luz, sempre a mesma noite. 
Ah, se afronto confiado a vida, a incerteza da sorte, 
Sorridente, impensando, a possibilidade quotidiana de todos os males, 
Inconsciente o mistério de todas as coisas e de todos os gestos, 
Por que não afrontarei sorridente, inconsciente, a Morte? 
Ignoro-a?  Mas que é que eu não ignoro? 
A pena em que pego, a letra que escrevo, o papel em que escrevo, 
São mistérios menores que a Morte?  Como se tudo é o mesmo mistério? 
E eu escrevo, estou escrevendo, por uma necessidade sem nada. 
Ah, afronte eu como um bicho a morte que ele não sabe que existe! 
Tenho eu a inconsciência profunda de todas as coisas naturais, 
Pois, por mais consciência que tenha, tudo é inconsciência, 
Salvo o ter criado tudo, e o ter criado tudo ainda é inconsciência, 
Porque é preciso existir para se criar tudo, 
E existir é ser inconsciente, porque existir é ser possível haver ser, 
E ser possível haver ser é maior que todos os Deuses.

Alvaro de Campos