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Um amor

 

“Por ti junto aos jardins recém-enflorados me doem os perfumes de primavera.
Esqueci teu rosto, não recordo de tuas mãos, de como beijavam teus lábios?
Por ti amo as brancas estátuas adormecidas nos parques, as brancas estátuas que não têm voz nem olhar.
Esqueci tua voz, tua voz alegre, esqueci de teus olhos.
Como uma flor a seu perfume, estou atado à tua lembrança imprecisa. Estou perto da dor como uma ferida, se me tocas me maltratarás irremediavelmente.
Tuas carícias me envolvem como as trepadeiras aos muros sombrios.
Esqueci teu amor e não obstante te adivinho atrás de todas as janelas.
Por ti me doem os pesados perfumes do estio: por ti volto a espreitar os signos que precipitam os desejos, as estrelas em fuga, os objetos que caem.”

Pablo Neruda

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A Dor

Assim se forma uma alma rarefeita:
com espelho, com ninguém, com retrato,
sem homens, sem Partido, sem verdade,
com sussurro, com ciúmes, com distância,
sem companheiro, sem razão, sem canto,
com armas, com silêncio, com papéis,
sem povo, sem consulta, sem sorriso,
com espias, com sombras e com sangue,
sem França, sem Itália, sem os cravos,
com Bérias, com sarcófagos, com mortos,
sem comunicção, sem alegria,
com mentirosos, com látegos e línguas,
sem comunicação, sem alegria,
com a imposição e com a crueldade,
sem saber quando cortam a madeira,
com a soberba triste, com a cólera,

sem compartir o pão e a alegria,
com mais e mais e mais e mais e mais
e sem ninguém, e sem ninguém, sem nenhum,
com as portas fechadas e com muros,
e sem o povo de suas padarias,
e com cordéis, com nós e com ausência,
sem mão aberta, sem flor evidente,
com as metralhadoras, com soldados,
sem a contradição, sem a consciência,
com desterro, com frio e com inferno,
sem ti, sem alma, só, e com a morte.

Pablo Neruda