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Feliz Ano Novo!!!!!

Ano-novo: 7

Viver

Quem nunca quis morrer
Não sabe o que é viver
Não sabe que viver é abrir uma janela
E pássaros pássaros sairão por ela
E hipocampos fosforescentes
Medusas translúcidas
Radiadas
Estrelas-do-mar… Ah,
Viver é sair de repente
Do fundo do mar
E voar…
e voar…
cada vez para mais alto
Como depois de se morrer!

Mário Quintana

Canção para uma valsa lenta

Minha vida não foi um romance …
Nunca tive hoje um segredo até agora.
Se me amas, não digas, que morro
De surpresa … encanto de … de medo …

Minha vida não foi um romance
Minha vida passou por passar
Se não amas, não finjas que vivo,
Esperando um amor para amar.

Minha vida não foi um romance …
Pobre vida … passou sem enredo …
Glória a ti que me enches a vida
De surpresa, de encanto, de medo!

Minha vida não foi um romance …
Ai de mim … Já se ia acabar!
Pobre vida que toda depende
De um sorriso … de um gesto … um olhar …

Mario Quintana

Janela

Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo
– para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.

 

Mario Quintana

O poema

“O poema essa estranha máscara mais verdadeira do que a própria face.”

Mario Quintana

Pressentimento

Que esta minha paz e este meu amado silêncio
Não iludam a ninguém
Não é a paz de uma cidade bombardeada e deserta
Nem tampouco a paz compulsória dos cemitérios
Acho-me relativamente feliz
Porque nada de exterior me acontece…
Mas,
Em mim, na minha alma,
Pressinto que vou ter um terremoto!

Mário Quintana

Presença

praiaesol.jpg

É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento
das horas ponha um frêmito em teus cabelos…
É preciso que a tua ausência trescale
sutilmente, no ar, a trevo machucado,
a folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo…
Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu sentir
como sinto – em mim – a presença misteriosa da vida…
Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com o teu retrato…
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te!

Mário Quintana